Pedro e Mariana

Mariana estava zonza. Como poderia ter adivinhado?? Ele parecia tão legal e extrovertido, como poderia ser casado?, ainda por cima, com alguém que não saía, não acompanhava o pique dele. É verdade, acima de tudo, que Pedro tinha aquele olhar meio cafajeste, aquela lábia que todo bom conhecedor de mulheres passa quando quer, pra conseguir quem quer, e consegue. Ah, aquele sorriso passando pra ela o capacete da moto, como recusar? É verdade também que ela só o conhecia há uma semana, mas já se sentia apaixonada. Afinal, ele era encantador, alguns anos mais velho, e com cara de quem sabia aproveitar cada dia, cada minuto que tinha.
Alexandre morava no caminho, como ir para a casa de seu amigo sem passar pela casa dele? O som sempre alto já tinha chamado a atenção dela várias vezes, e uma noite, eles pararam pra conversar. Alexandre tinha aquele jeito mais largado, de quem não se importa muito com as coisas. Andava sempre de moto e isso era outra paixão da garota, que ainda nova, não tinha idade pra dirigir. Naquela noite, uma semana antes, indo encontrar sua turma, Mariana viu Alexandre com mais dois colegas na porta de casa e parou pra conversar. Não tinha idéia de quem estava com ele, na verdade não tinha nem olhado. E quando um deles falou em sair, ela resolveu ir embora, só então reparando naquele "menino". Um rosto encantador, do estilo que ela gosta. A barba meio por fazer, mas não desleixada, pelo contrário. O olhar fixo nos olhos dela e o jeito de falar, como quem não quer nada. Mariana recusou a carona de Alexandre e saiu, ainda teria que esperar uma hora pra seus amigos saírem da faculdade.
Descendo a rua, ela ouviu um barulho, motor de moto, bem devagar. Olhou pro lado e deu de cara com o lindo desconhecido. Ele tinha as mãos nas costas e jeito de quem vai fazer travessura. Mostrou para ela um capacete.
- Vem!
- Não posso...
- Por que não?
- Se eu subir nessa moto, quero ver quem me tira daí!
No fundo, era isso mesmo que ela queria, aceitar sem parecer oferecida, ou fácil. Mas queria ir. E com um sorriso lindo, ele estendeu ainda mais o capacete pra ela
- Melhor ainda, vem!
Mariana não calculou perigos, não pensou em nada. Ali era uma cidade pequena, todos se conheciam e ele não iria fazer nada demais. Ela já conhecia Alexandre, acreditou não estar fazendo nada errado, era só uma volta pela cidade mesmo. E aquele sorriso tão lindo a convidando, de um jeito tão insistente e sincero, ela não pôde, nem quis, resistir. Ele deu o capacete pra ela, que colocou enquanto subia na garupa. Assim que viu a menina pronta, ele acelerou saindo dali e alcançando a moto de Alexandre. Somente com a moto já rápida, ele ficou meio de lado e perguntou o nome dela, somente nessa hora ela se deu conta de que ele realmente era um completo desconhecido. Nem o nome! Mariana... Pedro.
Pouco depois pararam num lugar meio movimentado, conhecido na cidade. Sentaram numa mesa e resolveram beber uma cerveja. Só uma garrafa não dá conta de quatro copos. Duas então. E logo começaram a falar dos planos para aquela sexta-feira. Pedro tinha ido devolver o capacete que Mariana usou pro amigo, em casa, ali perto. Quando voltou, perguntou então como fariam com ela, pra levá-la junto. "Me levar pra onde?". A menina até tentou, dizendo que tinha prometido chegar cedo em casa, que tinha que encontrar uns amigos, mas ele não desistiu. "Vem com a gente!". E de novo aquele sorriso, aquele jeito de não tirar os olhos dela. Alexandre pegou o celular. "Liga pra tua mãe, fala que você vai com a turma que você sempre anda e que no máximo duas horas a gente tá aqui". Depois de conversar um pouco, ela desligou sorrindo, havia conseguido convencer a mãe, ia pra cidade vizinha com os amigos. Se sua mãe soubesse que na verdade era com dois completos estranhos, um conhecido de pouco tempo e de moto, nunca teria deixado. Se soubesse que ela bebia, que os "motoristas" bebiam, ela nunca teria saído de casa. Mas o fato é que a garota conseguiu. E Pedro saiu pra pegar o capacete outra vez. E foi quando Alexandre a puxou de canto.
- Você deve ser louca de subir na moto do Pedro. Vai comigo, é melhor
- Se eu não fosse louca, não estaria indo com vocês. Se eu tivesse o mínimo de juízo, tava em casa.
Ele riu, ela subiu na moto dele. E foram.
Mariana nunca tinha andado tão rápido numa moto. Naquele dia ela parecia ter adivinhado o que ia acontecer. A jaqueta parecia ter sido de propósito. Os cabelos, colocados pra dentro da jaqueta, quase não bagunçavam, a bota não deixava o pé escorregar, e ao contrário do tamanco que ela sempre usava, não corria o risco de ficar no meio da pista. O capacete que ela usava dessa vez não tinha viseira. Vendo isso, Pedro lhe deu o óculos de proteção que usava. Ela bem que tentou devolver quando chegaram na cidade, mas ele recusou. Chegaram rápido, pararam numa choperia, beberam um pouco e pra ela já estava bom. Quase começando a ficar alta. Pedro, sentado na frente dela, não parava de cutucar os pés da menina, de mandar beijo, de brincar com ela. E Mariana sabia, dava corda, dava motivos pra ele continuar. Com seu jeitinho e idade de menina, ela já era mulher feita, sabia ler os olhos de um homem, sabia as armas que tinha pra usar com ele, pra levar a situação. E por isso deixava e ao mesmo tempo proibia, já sabendo onde aquilo poderia parar.
Hora de ir embora, pagar a conta. Pedro aproveitou um momento a sós para falar baixinho, quase no ouvido dela "eu quero sair com você". E como era bem do jeito dela, Mariana não respondeu. Olhou e sorriu. Ainda pararam num lugar onde todo mundo se encontrava. Alguém apareceu com uma latinha de refrigerante pro Pedro, que deu um gole e passou pro Alexandre, recomendando ir com calma. Quando chegou em Mariana, ela já sabia pra ir devagar, que aquilo não era refrigerante. E era muito forte. Vodka, pura. Na mesma hora, quando bateu por cima de tudo o que ela já havia bebido, a menina ficou meio zonza e sorriu. Subiram nas motos, voltaram pra pequena cidade onde moravam. Na pista, Mariana de cabeça baixa, pensando na noite. Assim evitava que Pedro tentasse fazer todo o caminho de volta sem os óculos novamente. Pararam na casa de Alexandre pouco depois. As motos voltaram ainda mais rápidas, mas ela mal percebeu.
Desceu da moto e não entrou com Alexandre, ficou esperando Pedro na garagem, enquanto fingia guardar o capacete. Pedro a olhou de frente.
- Você não vai mesmo ficar comigo né?
- Eu? Nem falei nada...
- Não precisa, seu olhar tá dizendo...
- Nossa, me conheceu hoje e já quer ler meus olhos? Muito bom você hein...
E sem falar mais nada, Pedro abraçou a menina de lado, dando um beijo na testa dela. Ele sabia, ela só tinha dezesseis anos, mas se não tivesse contado, ele daria no mínimo 18, se não mais. A altura entregava um pouco, aquela morena era baixinha. Mas tinha um corpo esculpido, uma conversa animada, nada de sua pouca idade, pelo contrário. Melhor do que muita mulher feita que ele conhecia por aí. E ele, com vinte e três anos, conseguiu ter sua atenção presa por uma garotinha de dezesseis, como se nunca tivesse visto mulher assim, conversa assim, ou um corpo daqueles, numa feição de menina e ao mesmo tempo, de mulher. Um rosto de anjo, mas não inocente. Ele podia sim, ler o olhar dela. Havia mentido, ainda não tinha prestado muita atenção pra saber se ganhara ou não aquela menina, mas quando olhava, sabia que ela tinha mais pra mostrar do que aquela conversa, aquele jeito de criança travessa.
Mariana deu uma risada alta, já estava fazendo efeito, era a bebida da noite toda. Se soltou do abraço de Pedro e encostou no batente da porta. Pedro a seguiu, sentou meio que de frente pra ela, que comentou sem pensar muito "nossa, aquela vodka pura fez subir muito rápido, tô meio tontinha até agora". Com aquele sorriso que ela tanto gostava e aquele jeito que tinha ganhado aos poucos a atenção da menina, Pedro falou bem baixinho, causando novos risos nela "ai, que delícia!". "Delícia né, sei.." e ria ainda mais quando olhava aquele homem feito, tão lindo. Pedro só observava.
Ainda faltava meia hora pra Mariana chegar em casa. Resolveram dar mais uma volta na cidade. Novamente Mariana e Pedro ficaram sozinhos ali fora.
- Vamos pra onde?
- Não sei, mas vou só dar uma volta, depois vou pra casa
- Vamos agora, eu te levo, a gente fica mais tempo por lá...
- Não
E quando Alexandre chegou, Pedro não deu tempo, já falou pra Mariana subir na moto dele. "Eu te levo pra casa hoje." Pedro se fez de bravo e tirou o capacete de Márcio. Mandou ele deixar com a menina o que tinha viseira. E foram embora.
Uma volta até que rápida pela cidade, que ainda estava movimentada mas não tanto, e Mariana pediu "me leva pra casa". Ele mal avisou Alexandre e arrancou dali com a moto. Só no farol que foi perguntar aonde que era e se surpreendeu em saber que era perto da sua. Como nunca tinham se visto antes? Numa das ruas próximas, ele deixou sua mão cair para trás, sobre a perna dela. A garota não falou nada. Tinha ficado na moto segurando atrás. Mas depois do farol, já tinha colocado as mãos pra frente, se segurando nele. Ao passar na frente de sua casa, ela viu uma luz acesa. Se chegasse de moto em casa, sua mãe ia deduzir que ela tinha saído de moto. Mandou ele seguir e parar pouco depois. Desceu da moto explicando pra ele o porque. E quando tirou o capacete, ele a estava olhando nos olhos. Pegou o capacete das mãos dela e prendeu na moto. Depois se virou rápido, puxando Mariana de surpresa pra perto de si. E a beijando, com vontade. Demoraram um pouco ali. Um beijo atrás do outro, vontade de ficarem juntos a noite inteira, mas ela precisava ir e depois de algumas tentativas, conseguiu convencer Pedro de que era melhor entrar. Ela se virou de costas enquanto ele falava "quero sair com você de novo, pode ser?". E até agora a menina não sabe se respondeu "quem sabe" ou se riu sem responder nada.
No outro dia, Mariana acordou com sede. Queria ir cedo pra casa do Alexandre, mas ia ficar muito na cara o interesse dela, que tão pouco passava por ali. Resolveu fazer como sempre e só foi de noite. Então ele comentou que, durante a tarde, o motor da moto de Pedro tinha travado e ele não ia sair. Ela continuou freqüentando a casa de Alexandre e se desencontrando de Pedro. A última vez que se viram? No domingo, ela chegando e ele saindo com outra moto
- Você me espera?
- O Alexandre tá aí?
- Não, mas ele não demora. Me espera?
- Espero, mas só um pouco.
E se conhecendo, ela sabia que não ia esperar. Esperou só até um pouco depois de Alexandre chegar e foi encontrar os amigos.
Agora, uma semana depois, numa conversa inocente com Alexandre, ela descobrira que ele é casado. Como pode ser? Casado já ia fazer um ano, mas com alguém que todos cansaram de falar que era chata, com alguém que não saía com ele, que não o deixava sair muito. E tinha um filho, novinho. Mesmo assim, mesmo só o tendo visto duas vezes, ela se sentia cada vez mais atraída por aquele lindo desconhecido. Aos poucos ficava sabendo dele, sem demonstrar muita curiosidade, afinal, ele era casado, ninguém poderia saber que eles tinham saído. Mas ela queria de novo. E não entendia a lógica de seu querer, já que sabia. Já que não era esse tipo de garota, mas ela apenas queria e nisso os dias foram se passando aos poucos.
Quarta-feira, dia de sair de noite, dia de passar nos seus amigos. Muito tempo já havia passado desde aquela noite, mas ela ainda lembrava com todos os detalhes. Chegou do colégio animada e sua mãe pediu para que saísse, para que comprasse algumas coisas que faltavam. Aproveitando o bom humor da filha, que nunca ia. Mariana se trocou e fez hora, enrolando no quarto, até que saiu. E na esquina de sua casa com a avenida, viu um carro passando muito rápido, mas não o suficiente. Ela conseguiu ver o motorista... era o Pedro. E ele olhou pra esquina ao passar, também reparou na menina e a reconheceu. Quando ela olhou pra trás, viu que ele dava a volta com o carro. Parou bem do seu lado...
- Não fala mais oi pros amigos??
- É que você passou tão rápido...
E, rindo, a menina colocou a cabeça pra dentro do carro, dar um beijo no rosto. Mas ele a segurou e a beijou na boca. Surpresa, mal conseguiu esboçar uma reação. Conversaram pouco, rápido e decidiram se encontrar na casa do Alexandre. E ela voltou pra casa confusa, afinal, se ele era casado, por que a beijou na boca ali, onde todos poderiam ver? Onde sua mulher poderia ver?
De noite Mariana teve sua resposta. Assim que chegou, o viu. Ele mal deixou a garota falar oi pra quem estava lá. A abraçou bem forte, levando pro fundo da casa. E ali, ficou encostado na parede com ela, a beijando com uma certa urgência e saudade que ela não soube definir. Como ela gostava daquele jeito dele, daquele sorriso, mas e o casamento? De volta a frente da casa, ficaram conversando e brincando muito. Não só os dois, mas os mesmos quatro que haviam ido juntos pra outra cidade, ela, Pedro, Alexandre e Márcio.
Distraída com a conversa, mal reparou quando ele saiu pra comprar cigarros. E aproveitou para perguntar pro Alexandre o que ele tinha que tava tão animado. E aí sim entendeu tudo, ele tinha se separado naquele mesmo dia. Pedro voltou e continuaram como se ela de nada soubesse.
E quando quis ir embora, Pedro a trouxe. Ainda pararam na casa dele. Mas não foi determinação, ele simplesmente perguntou:
- Você quer ir direto pra sua casa?
- Que horas são?
- Dez e vinte
- Tenho até às onze, onze e meia...
E então pararam na casa dele. Pedro não escondia que tinha mulher e filho, mas também não falava nada a respeito. Se ela não soubesse, teria estranhado na porta de um dos quartos a placa com nome, como em quarto de criança somente se vê. Mas fingiu que não reparou e deixou pra lá, afinal, de que importava isso? Ele não tinha se separado? Então não estavam devendo nada pra ninguém. E começaram a conversar, a se beijar. Cada vez com mais força e mais urgência, mas Mariana não cedeu, não podia, tinha novamente que voltar cedo pra casa. E ele a levou, pedindo pra se encontrarem no outro dia. Ah, mas se ela soubesse, não teria saído de casa.
No dia seguinte, Mariana encontrou seu ex na rua. E foi uma confusão muito grande que fez com que eles terminassem, traição. Ele havia ficado com outra menina na frente de todo mundo. Mas ela não guardava mágoas, apenas não queria mais isso. Ele insistiu em querer voltar, e ela estava dizendo que não quando ele a abraçou de repente, pedindo pra ela pelo menos ouvir o que tinha a dizer. E quando ela se afastou, apenas viu de relance uma moto, descendo rápida. E um motorista de cabeça baixa. Mas reconheceu o capacete, era Pedro. E assim, ele entendeu tudo errado e não se viram naquele dia.
Domingo Mariana o procurou. Sabia exatamente onde encontrá-lo. Mas ele se mostrou magoado. E indignada ela quase perdeu o controle, mas disse que queria conversar com ele. Fazendo pouco caso, ele respondeu que ela podia falar.
- Não aqui, nem hoje. Mas se você quiser, me procura. Se não me procurar, não me vê mais.
- Nossa. Vamos ver o que faço.
E assim Mariana saiu, com raiva e magoada. Só então percebendo o quanto tinha se envolvido e como se sentia apaixonada.
Pedro não saía de seus pensamentos. De seu coração e ela não queria mais chorar por alguém que parecia não estar nem aí. Não saiu no outro fim de semana, nem tão cedo. Não queria encontrá-lo mais.
Pedro não entendia o sumiço da menina. Acreditou que a tinha, e não sabia perder. Achou que ela fosse voltar arrependida das palavras grosseiras, mas se enganou. E se sentiu feliz por isso, ela era realmente uma menina muito especial. Ele procurou não sentir falta de Mariana. Afinal, tinha tantas garotas lindas na cidade. Mas ele queria aquela. Aquele sorriso de criança, aquele olhar se revelando aos poucos. E a procurava em cada rua que passava. Então se lembrou do que viu no último olhar que ela lançou a ele. Era um olhar magoado e com raiva de quem realmente não volta. E se sentiu perdido ao perceber que isso o incomodava. Que ele queria aquela garota como jamais quisera outra mulher. Que nada importava, desde que ele pudesse vê-la sorrindo de novo, sem aquela mágoa toda no olhar, mas ele não podia procurá-la. Ela não tinha deixado que ele a levasse em casa, não sabia direito onde ela morava, sempre paravam um pouco depois. E telefone? Não, ela não passou. Como então, explicar pra ela que estava sendo diferente? Nisso ele se torturou dia após dia.
Algum tempo depois, as meninas da turma de Mariana combinaram de sair juntas. Tem boate, vai estar bom. Pelo menos era o que todos diziam e Mariana resolveu ir, já fazia tempo que ela não saía e precisava se distrair, conhecer outras pessoas pra esquecer Pedro. Embora estivesse difícil passar um minuto sem pensar nele. E assim ela fez, marcou de encontrar todo mundo num barzinho. Mas ao chegar, deu de cara com Alexandre. E foi dizer oi. Só então percebeu que Pedro estava ao lado.
- Oi Mariana.
- Nossa, achei que você não falava mais comigo. Tudo bem?
- É, tudo.
E logo Alexandre saiu pra buscar a namorada. Os dois estavam sozinhos e Pedro começou a brincar com a camera.
- Desliga vai, odeio ser filmada...
- Não, vou aproveitar pra te perguntar. O que você tinha pra me falar aquele dia?
- Desliga que a gente conversa.
- Você vai pra boate hoje?
- Vou.
- A gente se encontra lá, e hoje eu te levo pra casa.
E assim foi. Se encontraram lá dentro. Saíram cedo e ele parou na casa do Alexandre. Estava morando ali, pediu pra conversarem e a levou pro quarto. Mas não houve muita conversa. Se beijaram com a mesma saudade da outra vez, com a mesma vontade. E logo Mariana perdeu o controle, passou a noite ali, nos braços dele.
Algumas horas depois, ainda cansada e meio sonolenta, ela tinha um sorriso diferente e um carinho especial por ele. Começaram a conversar sobre muitas coisas e ele explicou enfim que simplesmente tinha ficado com ciúmes. Sim, ciúmes, ela era uma garota especial pra ficar com qualquer um e era assim que ele considerava qualquer menino com o qual ela andava. Prometeu que ela não o veria com outra mulher. E pelo jeito que falava, se revelava apaixonado. Sim, era de verdade, ele a amava, mas ainda não sabia, ainda não dava o valor merecido ao que sentia. Embora ela soubesse, não acreditava nem levava a sério. E quase amanhecendo totalmente, ele a deixou em casa.
As lembranças daquela noite ficaram para sempre no coração da menina. E no dele também. Nenhum dos dois entende o porque de tanto carinho nessa recordação. Mariana saiu da vida de Pedro por livre vontade. Ou pelo menos ele assim pensou. Saiu sem se explicar ou dar satisfação. Já fazia um bom tempo toda a história deles quando ela começou a sair com outra pessoa. Ele pensava naquela menina-mulher de um jeito diferente, não era assim que pensava nas outras tantas que já havia tido. No meio da história deles, muitas pequenas coisa e pequenos detalhes que passaram, só sendo entendidos mais tarde. Sim, eles se amavam, mas agora não adiantava mais. Mariana saiu da vida de Pedro não exatamente porque quis, mas ouviu conversas dele e percebeu que só estava atrapalhando. A ex-mulher dele sabia da existência dela, e não se conformava dele estar com outra tão cedo, ainda mais com o filho doente. E não queria mais deixá-lo ver a criança. Pedro acabou tendo que contar isso pra Mariana, que se sentiu muito triste e culpada. E num outro dia, quando viu a ex cunhada dele passando, simplesmente entendeu que não dava pra continuar, que ia atrapalhar. Se levantou do lado dele e sem dar nenhum beijo, apenas disse que ia no barzinho e já voltava. Nunca mais ela voltou. E Pedro não entendeu o porque.
No começo apenas achou que ela havia se cansado dele. E não gostou de pensar assim. Ficou com raiva quando a viu com outro, mas o que poderia falar?? Pouco tempo antes eles tinham se visto e ele se comportou como se ela não quisesse dizer nada pra ele. Claro que ela ia procurar quem a valorizasse. Até que se encontraram novamente
- E aí, tá namorando?
- Hahaha.. não, homem só me dá dor de cabeça. Vi teu filho hoje, quando tava saindo de casa.
- É, preciso ir lá..
E Pedro estava com um amigo que não conhecia a história dos dois, que interrompeu a conversa e a pediu em namoro, disse que ela era muito linda e que por isso ele não daria dor de cabeça, iria se comportar. Mariana apenas riu, daquele mesmo jeito solto que o álcool produzira nela da outra vez, provocando a lembrança daquela noite em Pedro, e se despediu. Beijinhos no rosto e pronto. No mesmo fim de semana ela parou de sair com o outro cara e pensava mais do que nunca em Pedro, precisava conversar com ele, explicar porque tinha sumido. Mas não tinha coragem de ir atrás, sentia medo da reação dele. E Pedro pensava em procurá-la pra tentar entender, mas também não tinha como chegar na casa da menina assim, do nada. E não mais se encontravam na rua como antes. Aos poucos Mariana parou de sair. E recebeu com surpresa a notícia, por um amigo que não tinha nada a ver com a história.
- Mary, lembra aquele teu amigo, que tinha uma moto vermelha??
- Lembro sim, o Pedro..
- Isso.. ele mesmo. Tá se mudando. Vai sair de São Paulo pra ir morar no Rio. Embarca no próximo avião.
Pedro fez as malas pensativo. Não queria sair sem falar com a garota que tanto mexeu com ele. E que somente agora ele entendia o quanto era importante. Sim, ele a amava. Mas se a procurasse, isso nunca mais ia acabar. E se ela o amasse também? O que ambos poderiam fazer? Não. A passagem já estava comprada, pra dali a duas horas. Ele não ia desistir nem voltar atrás. E não iria procurá-la. Não importava se não conseguia ficar sem pensar em Mariana um dia sequer. Nada poderia ser feito, ele tinha que ir e não podia levar a garota de sua vida junto. Deu um último beijo no filho, o levou pra casa da mãe e foi pro aeroporto.
Mariana pensava, não sabia o que fazer. Não podia ir pra lugar algum com ele. Mas e se ele a amasse?? Sim, ela o amava, tinha certeza. Mas não podia tê-lo. De que adiantava então sofrer ainda mais? Mesmo assim. Ela tinha que ir ao aeroporto.
Pedro já estava na área de embarque quando ela chegou. Justamente pensando no quanto gostaria de pelo menos se despedir. Afinal, só então ele entendeu que aquela criança de dezesseis anos, com um sorriso lindo e um pouco louca, com aquele jeito de olhar, sim, essa menininha era a mulher de sua vida e ele não podia ter. E Mariana o reconheceu de longe. O vendo daquele jeito curvado, sério e pensativo, que em nada lembrava o homem sedutor que ela conheceu e que descobriu ser o homem de sua vida, percebeu que ele sentia em ter que partir. Gritou seu nome e sorriu quando o viu olhar, surpreso e feliz, pra ela. Mas ele não podia voltar, já tinha passado pela revista e o vôo tava na hora certa, sem atrasos. Mandou um beijo de longe e sorriu com os olhos e a alma, enquanto falou : "Eu te amo". Mariana ouviu e sentiu as palavras, "eu também te amo" e virou as costas, saindo dali antes que as lágrimas caíssem. Não, eles não podiam se pertencer, ele tinha um caminho diferente do dela. E o amor de ambos não era motivo o bastante pra que os outros entendessem a vontade que ela sentiu de abandonar tudo e correr atrás dele, que ele sentiu de largar o que quer que fosse pra ficar ao lado dela.

Mariana saiu do aeroporto chorando. Sabia que ele era o homem de sua vida e que nunca iria esquecê-lo.
Pedro embarcou com os olhos cheios de lágrimas, mas não se permitindo chorar na frente de ninguém. Entendeu que nada apagaria aquela garota de sua vida, e se foi, apenas com as lembranças da única noite que passaram juntos e do dia que se conheceram. De uma história muito mais longa e forte do que vidas inteiras.
Ela se casou, teve filhos e se separou. Nunca amou outro homem. A lembrança de Pedro era forte, o amor que sentia por ele, maior.

Pedro teve outras mulheres. Algumas mais fáceis, outras mais difíceis. Mas nenhuma apagava de seu coração aquela menina que tão nova se revelou para ele. Que ele tanto queria mas não podia buscar. Que ele nem sabia como estava, mas reconheceria em qualquer lugar aqueles olhos, aquele sorriso e aquele corpo... a voz , o jeito, tudo o seguia todos os dias.

Pedro e Mariana nunca mais se viram, nem souberam o que aconteceu um com o outro. O amor e as lembranças não se apagaram, e a cada dia, olhavam pra trás com mais carinho e saudade, sem poder fazer o tempo voltar nem ao menos uma vez.

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