Insensatez

Final do inverno, a depressão não passa. Início da primavera, as dores se tornam mais intensas. Noelle era uma garota que tinha de tudo: pais super carinhosos, família muito unida, dinheiro, boa escola, amigos dedicados e um namorado que a amava. O que poderia estar errado? Seus pensamentos são desconexos. Seu mundo se torna obscuro. Nada ao seu redor faz sentido. O que acontece em sua vida foge ao controle. A vontade de ver os que a cercam some de vez. Amigos?? Não mais os chamava assim. Até então ninguém havia reparado que havia algo errado. De temperamento explosivo e animação contagiante, quem poderia adivinhar que ela não estava tão bem como parecia? Quem iria perceber que aquela tão bela jovem estava mais e mais solitária e perdida?? A garota mais popular do colégio, quem não conhecia Noelle? Boa aluna, mesmo conversando, agitada e fazendo tudo ao mesmo tempo. Conhecida dos professores, não era bem vista. Tida como má influência e bom exemplo, ninguém nunca sabia como criticá-la sem defender no instante seguinte.
E era linda. Nem muito alta, nem muito baixa. O corpo perfeito parecia ter sido esculpido por mãos cuidadosas. No rosto traços femininos, nariz delicado, boca rosada, lábios que pareciam sempre prestes a se desmanchar num sorriso. Os cabelos negros eram uma perfeita moldura, acabavam no meio das costas. Os olhos azuis esverdeados, parecendo mudar de cor a cada dia eram profundos, alegres, expressivos, com um toque antigo que ninguém sabia de onde vinha.
Sua família também era muito unida e todos se davam bem. Seu irmão, quatro anos mais velho, a cercava de atenção e mimos. Seu namorado era um rapaz dedicado. Eles se amavam e faziam muitos planos juntos.
Acontece que não existem motivos. Noelle entrou em depressão no auge de seus 17 anos. Tinha toda uma vida pela frente e prometia ser uma grande jornalista.

Prometia.

Primavera

Dezessete anos, uma grande festa. Todos os seus amigos apareceram. O dia parecia ser o melhor que já existiu. Às dez da manhã começou a chegar gente. O Sol ajudava, uma nuvem ou outra passeava suave no céu, apenas para torna-lo mais belo.
Em volta do jardim, muitas árvores, o que torna o ambiente isolado e agradável ao mesmo tempo. A grama bem aparada se estende até um pouco antes da piscina e se perde na cerca viva que os isolava da casa principal. O som havia sido muito bem selecionado, e estava no volume preferido. Alguns dançavam no salão improvisado, que a margem da piscina se transformou. Muitos meninos nadavam enquanto as meninas tomavam Sol. Ninguém poderia estar mais animado do que eles.
Fazendo a festa em sua própria casa, Noelle entrou para pegar um cd esquecido na sala de jantar. Saiu sem ninguém esperar e correu pelo jardim. Seu sorriso era radiante pois tudo estava perfeito. Abriu a porta de vidro da grande varanda, que isolava os familiares de toda a bagunça e, sem olhar para os lados, correu para a maior sala da casa.
As cristaleiras e a enorme mesa se denunciavam como membros da família a gerações. A decoração se mantinha o mais próximo possível da original de seus antepassados. O lustre era bonito, com inúmeros cristais pendurados. Deteu-se um momento, tentando adivinhar a quantos bailes ele já havia assistido e de quantos casais havia sido testemunha.
Nesse momento, Tiago entrou na sala. Moreno, lindos olhos cor de mel, boca perfeita, jeito suave, sedutor. O cabelo meio desleixado e ainda sim parecendo ter sido arrumado fio a fio. Ele a olhou de forma especial. E o que viu foi uma linda menina, quase uma mulher, parada a olhar para um lustre antigo, com a luz natural da sala iluminando seu rosto e o sorriso leve que seus lábios formavam. Com passos rápidos e despercebidos, aproximou-se dela. Meio sem jeito por ter sido pega de surpresa, Noelle olhou e sorriu. Sem precisar que palavras fossem ditas para que ambos se entendessem, Tiago envolveu Noelle em um abraço suave e ao mesmo tempo intenso, deslizou a mão por seu rosto como quem desenha um contorno e se virou para sair. Mas ela o segurou pela mão, de leve, apenas para sentir, sem a força necessária para conter. Tiago tomou a mão dela entre as suas enquanto inclinava o rosto de leve, para um beijo esperado, calmo, como de quem tem a vida toda para fazer isso.
Já fazia tempo que os dois estavam sem saber o que fazer, sabendo que tinha mais algum sentimento ali. Saíram da sala de mãos dadas e com apenas um olhar qualquer um era capaz de perceber que ambos estavam juntos de verdade.
Durante a noite, eles continuaram ali. A bebida circulava por todo o jardim, e aos poucos eles foram ficando ainda mais falantes. A noite toda parecia um sonho, daqueles que não se quer acordar. Quando foram reparar, já amanhecia e era o mais belo amanhecer. Aos poucos a turma foi indo embora, até que só Tiago continuou ali. Subiram para o quarto dela.
O quarto de Noelle era uma suíte enorme onde eles gostavam de se reunir quando não tinham nada pra fazer. Deitaram na cama, ligaram a tv e um filme de terror havia acabado de começar. Noelle dormiu abraçada em Tiago antes mesmo de saber que filme era. E Tiago acabou adormecendo pouco depois.
Mas a realidade logo os chamou de volta... Na segunda-feira lá estava ela no colégio mais uma vez. Começo de primavera, fim de ano se aproximando, nenhuma preocupação com notas e um sorriso mais belo do que nunca em seu rosto. Assim foram se passando os dias, com a garota se sentindo realizada e completa.
O fim do ano chegou. As férias prometiam ser maravilhosas. Praticamente três meses de plena liberdade, e tendo Tiago ao seu lado.

Verão

As férias pareciam voar. Passaram o ano novo em Copacabana. Ficaram ali durante todo o mês de janeiro, a família de Noelle tinha um apartamento e sempre ia. Dessa vez ela fez questão de levar Tiago. Mas o tempo parecia realmente correr e chegou a hora de voltar. Ela estava ansiosa por rever seus amigos, saber de cada um deles.
As aulas recomeçaram. Terceiro ano, mesmos professores, mesma classe. Aproveitou muito os primeiros dias de aula. Estava muito animada e com muito pique. Mas alguma coisa aconteceu, alguma coisa foi mudando, aos poucos.
Tiago percebeu quando Noelle recusou-se a ir na danceteria preferida, onde se encontrava quase toda sexta. Mas não deu muita importância, podia ser apenas vontade de mudar a rotina. Não era. Noelle não percebeu o que estava lhe acontecendo. Continuava como sempre fora, apenas seu pique diminuíra. É, deveria passar em breve. Resolveu que ajudar isso a progredir não seria bom pra si mesma. Decidiu se animar antes que essa coisa, que ela não conseguiu definir de outra forma, dominasse tudo. Levou Tiago para os lugares mais improváveis, encontrou gente nova, fez bons amigos e se divertiu como nunca. Mas aquilo continuava ali.
Por mais que tudo parecesse bem e ela não tivesse mudado nada, em algum lugar dentro de si, algo crescia, sem explicar nem avisar. Sempre que estava sozinha em seu quarto, Noelle sentava na cama, colocava uma de suas bandas preferidas pra tocar em último volume e ficava quieta. A letra da música se repetia em sua mente como um mantra e todos os seus pensamentos fugiam. Então ela se sentia bem. Outras vezes ela simplesmente colocava a música bem baixinho e ficava tentando entender seu coração e sua mente. Tentando se descobrir para conseguir saber o porquê de ir mudando aos poucos e só ela sentir essa mudança. Era como se não fizesse mais parte desse mundo. Precisava concentrar sua mente em alguma coisa, pois com essa sensação esquisita, ia acabar enlouquecendo. Acontece que tudo foi parando de fazer sentido.
Continuou a freqüentar lugares estranhos, conheceu gente de todos os tipos. De manhã era a boa aluna que não parava, que todo mundo admirava. De noite, era a menina estranha, que saía, ia pra lugares que não tinham nada dela. Noelle observava as pessoas. Gostava de ver como elas agiam. Mas aos poucos foi mudando isso também. Começou a ver somente a futilidade que a maioria prioriza, e se sentiu ainda pior.
O tédio dominava cada pedacinho de seu corpo. Essa coisa esquisita não a deixava em paz. Mas quanto mais Noelle tentava entender, menos ela entendia. Melhor se concentrar nas provas, elas estavam chegando.

Outono

Como sempre, Noelle teve boas notas. Mas agora, com as provas longe novamente, sobrava tempo pra pensar. Pensava em si, no seu namoro, em Tiago, e não conseguia descobrir a razão de estar tão perturbada assim. Tentou inventar um motivo, tentou acreditar que era passageiro. Só a música desviava seus pensamentos dessa sombra que se plantou em sua alma.
Para tentar diminuir o tempo que sobrava, resolveu aprender a tocar bateria. Só que logo que uma coisa não era mais novidade, ela voltava a se sentir estranha. E agora, já quase não saía. Tiago estava de certa forma preocupado, e quando tentou conversar com a garota, apenas ouviu que ela estava muito cansada, estava querendo ficar um pouco mais em casa. E aceitou, fazendo companhia pra ela sempre que a faculdade não lhe tomava tempo demais.
Noelle sentia como se isso fosse a sufocar. Matava seu ânimo, sua vontade de fazer qualquer coisa. Ela não podia permitir que continuasse assim. Em breve ela sairia de férias, precisava arranjar algo que ocupasse sua mente. Talvez curso de línguas, mas Noelle já aprendera o inglês, não tinha vontade de aprender outras. Voltou as aulas de natação e as abandonou uma semana depois. Correu atrás de cursinhos, mas não conseguiria estudar mais do que a escola já pedia. Entrou num curso de teatro.
Pareceu que era a solução. Passava dias e noites ensaiando o papel, desenvolvendo a personalidade da personagem. Sua primeira peça foi justamente na última semana de aula. Ela fazia Ofélia, na peça Hamlet, de William Shakspeare. Mas quando a peça estava acabando e lhe deram a personagem de Desdémona, para interpretar em Otelo, do mesmo autor, Noelle sentiu que só gostara porque era Ofélia e agora não queria mais. Abandonou o teatro.

Inverno

Noelle não andava nada bem. Depois do teatro nada lhe estimulava a seguir adiante. Até tentou voltar mas sabia perfeitamente que não seria a mesma coisa. Tudo o que ela já sentira agora voltava com mais intensidade. Nem mesmo a música funcionava mais para esvaziar sua mente. Nem ela sabia direito o que acontecia. Foi de repente, aquilo começou a tomar conta de cada nervo. A tristeza começou a invadir. As aparências enganam, nem Tiago conseguiu saber de tudo o que se escondia em Noelle, ela não conversava sobre isso nem mesmo com ele. Por fora, continuava igual. Por dentro, seus pensamentos eram sombrios e, no mínimo, estranhos. Não sabe ao certo quando, mas começou a se sentir sozinha. Tendo tudo o que queria, começou a enjoar, não via mais graça em viver. Tentou começar a trabalhar, mas o trabalho não a distraía. Tentou curtir mais com a turma, acamparam juntos, fez tudo o que podia, tudo o que queria. Se mostrava alegre, realizada. Viajava com o namorado, dormia no mesmo quarto, na mesma cama. Dormia abraçadinha, conversando, trocando palavras de carinho e amor. Seu humor estava mais cínico e mais afiado do que nunca. Mas havia algo muito errado dentro dela e a sufocava a sensação de que aquilo ia dominar sem que ela quisesse. A vida estava perdendo a graça e os desafios que colocava no caminho não mais afetavam Noelle, que agora era indiferente e alheia a tudo o que acontecia.
Ela começou a querer ficar sozinha, passou a evitar a turma. Passava os dias no quarto. O som ficava alto, como sempre, mas as letras das canções não eram absorvidas por sua mente. O ritmo não mais deixava com que ela relaxasse. As idéias distorcidas perdiam significado. O mundo parecia algo distante e irreal e aí então ela se sentia bem. Os dias cinzentos eram curtos, as noites pareciam não querer passar.
Noelle já não sabia o que pensar, perdera completamente a alegria em fazer parte de um mundo, de uma turma. Esqueceu os amigos. Tentou desesperadamente resistir, mas não conseguia. Já não se alimentava, apenas quando a forçavam. Dizia que era falta de apetite. Começou a querer se isolar de todos, mas era difícil ficar longe de Tiago, afinal, como conseguiria ficar longe dele amando-o tanto? E mesmo sabendo que tinha algo errado, ninguém conseguia ajudar Noelle, ela não deixava, não comentava, quando perguntavam, respondia que era só uma fase. Quando Tiago pedia pra ela se abrir, Noelle apenas respondia com um sorriso e abraçando forte o rapaz.
Ela estava ainda mais linda. Seu olhar, embora um pouco distante e triste, continuava com um brilho diferente. Seu coração havia se transformado em pedra. Para ela só existia a indiferença. Continuou tratando todos normalmente. "Se eu falar o que ando sentindo e pensando, vão me chamar de louca. Melhor eu ficar na minha, daqui há uns dias, já tô normal de novo. " Era o seu pensamento sempre que alguém tentava descobrir o que se passava com ela.
Tiago passava grande parte dos dias com ela. O anoitecer eles sempre viam da varanda. Quanto mais ela observava o céu cinzento, mais solitária se sentia. Ele ia embora cedo, mesmo nas férias, estudava. Noelle passava noites quase inteiras acordada, fazendo a única coisa que ainda sentia vontade, escrevendo. Dormia até as duas da tarde e as duas e meia o Tiago chegava. Pensou em experimentar algo novo. Já tinha feito tudo o que parecia ser possível. Não, Noelle não conseguia pensar em nada. Nem o jornalismo a atraía mais. Estava ficando difícil continuar a enganar Tiago. Sem saber do que realmente se passava no coração de Noelle, ele foi deixando de perguntar, de se mostrar interessado.
Volta às aulas. Na classe ela continuava dinâmica e comentada. Continuava aluna aplicada. Continuava como sempre foi. Tiago, pensando que ela continuava estranha, passou a ir buscá-la, só para ter uma desculpa e vê-la um pouco mais, tentar descobrir o que acontecia. Ele não conseguia perceber que ela estava tão diferente, mas sabia que algo estava acontecendo. O que seria?
Noelle teve que voltar a dormir cedo, mas começou a exagerar. Se despedia de Tiago às seis. Às sete já estava na cama. As três já estava de pé. Começou a acompanhar o nascer do Sol. Quando tudo indicava um lindo dia, ela ia se arrumar chorando.
"Parece injusto toda essa alegria e eu não poder compartilhar." Parece que foi o estopim. O pensamento de que não mais compartilhava das coisas que todo mundo sentia despertou-lhe uma revolta até então desconhecida. Só que Noelle pensava muito antes de agir. Não, ela ia continuar escondendo o que sentia. Em sua cabeça, ninguém entenderia tal dor. Todos iriam querer saber o porque, mas isso nem ela mesma sabia. Como explicar de onde vem tal sentimento? Como dizer que não há culpados nem razões, há apenas o sentimento? Seria difícil demais correr o risco. Mas estava ficando intenso demais, insuportável.
Noelle agüentou até onde pode. Começaram as provas bimestrais.

Primavera

Final do inverno, a depressão não passa. Início da primavera, as dores se tornam mais intensas. Não vendo outra saída, ela decide o que fazer. Deixa as emoções de lado. Na verdade, já não sentia mais amor, ódio, desespero, dor. Não tinha mais lágrimas, nem sorrisos. Seu olhar perdera o brilho e seu coração, o amor pelo que quer que fosse. Como dar fim a tal dor? Ela só vê uma saída. Seus pensamentos são desconexos. Nada ao seu redor faz sentido. O que acontece em seu mundo foge ao controle. A vontade de ver os que a cercam some de vez. Mas afinal, o que acontece, por que tanta dor? Quais os motivos de tudo isso e o que fazer para que tudo volte a ser como antes?
Acontece que não existem motivos. Alguns caminhos não tem volta. Alguns becos são sem saída. Quem poderá entender o sentido das armadilhas da vida? Cada caso é um caso, cada alma tem uma missão. Cada ser, um destino. Quem poderá explicar quais as finalidades de determinadas atitudes? A vida prega peças, nos desafia. Cabe a nós reagir. Aceitar ou desistir? Alguém cansou de ficar no meio do caminho. Esquecendo todo o sentimentalismo, começa a se despedir do que chamam de vida. Deixa seus planos para trás. Não conseguiria ser feliz se não desse um basta a essa dor e há tempos ela tentava. Pois bem, cada um conhece seus próprios limites. Os dela haviam chegado.
Anoiteceu. Tiago apareceu de surpresa. Avisou que não era pra ela esquecer. "Esquecer o quê?" Que a turma iria se reunir ali no outro dia, afinal, era aniversário dela e um ano de namoro deles.
Já fazia um ano! Como o tempo passou rápido. E como a vida brincava com Noelle. Coincidência demais. Noelle deitou em sua cama e derrubando algumas lagrimas teimosas, começou a recordar sua vida desde o momento em que Tiago lhe beijara na sala de jantar. Tudo tão belo. Chegou a conclusão de que tudo valeu a pena, mas não queria que o tempo passasse. Chorou como criança a noite quase inteira. Ainda escuro, seu relógio de pulso marcava quatro horas. Noelle decidiu o que fazer. Levantou da cama e desceu. Caminhou de leve até a dispensa. Abriu o armário de remédios. Pegou uma caixa de calmantes, outra de comprimidos para dormir. Foi na cozinha, pegou uma faca, a mais afiada. Subiu lentamente pro quarto. Leu as bulas. Tomou todos os calmantes. Sentou na mesa que ficava na frente de sua mini - biblioteca e, derrubando suas últimas lágrimas, começou a escrever. Como poderiam entender se ela não explicasse? Num último momento pensou que ainda poderia voltar atrás, afinal, não fora pra isso que ela escolhera esse jeito, para ter chance de se arrepender? Acontece que o único motivo seria Tiago. Estava se tornando doloroso demais saber que estaria abrindo mão de quem ela tanto amava. Mas a dor era demasiado forte e o amor não foi capaz de fazê-la mudar de idéia. Terminou de escrever. Tomou os comprimidos para dormir. Sentou na cama e deu uma última olhada ao seu redor. Tudo muito belo, mas ela não podia continuar ali. Já não chorava, seus olhos ardiam. Fazendo um movimento rápido e decidido, firme como em todas as suas decisões, cortou os pulsos na vertical, abrindo a artéria.

Desmaiou.

Era normal Noelle acordar tarde e não sair do quarto antes que a chamassem para comer alguma coisa. Então foi sem surpresa que Tiago ouviu da mãe da menina que ela não tinha decido ainda e que eles só iriam chamar depois que tudo estivesse pronto. Ele resolveu subir, não queria ficar esperando. Abriu a porta do quarto. E gritou.
Não conseguia acreditar no que via, Noelle deitada na cama, meio caída de lado. Todo o lençol manchado de vermelho, a faca solta na mão direita da menina. Logo que se recuperou do choque, correu até a cama. Muito tarde, ela já estava morta. Beijou seus lábios entreabertos, de leve. Estavam frios. Com os olhos cheios de lágrimas, revolta e dúvidas, ele viu a carta em cima da mesa.

Vocês jamais serão capazes de me entender. Como explicar, num mundo onde todos tentam sobreviver, aqueles que decidem se matar? Não há explicação. Cada um conhece os próprios limites. O que sentia era uma dor que me invadiu sem motivo. Percorreu cada milímetro do meu corpo, sem se explicar. Tristeza profunda, desamparo, solidão. Mesmo sabendo do carinho que vocês tem por mim e do amor do Tiago. Nada no mundo deixa tais marcas. Vontade de morrer, de partir de uma vez por todas desse mundo onde ser feliz é muito difícil. Onde viver é muito difícil. Sonhos, nem eles me animavam mais. Estava tudo tão estranho. Tudo estava tão vazio. O amor se tornou uma ilusão. As ilusões machucam. A esperança some. Os bons sentimentos passam a ser apenas uma coisa que as pessoas dizem. A solidão é a única companheira, as noites são infinitas e as lágrimas não cessam de cair. Parecia que nada conseguiria me animar. Eu estava num buraco muito fundo, ninguém seria capaz de me fazer voltar. As coisas não são o que parecem. Esse sentimento aumentava sua força a cada dia. Cada vez que ele me dominava, parecia não haver volta. Sem motivos, ele simplesmente tomou posse de minha vida, sem pedir nem avisar. A morte parece ser a única coisa capaz de dar fim a tão insuportável lamento. A tortura se repetia a cada dia. Se fosse um dia bonito, dia de sol, me sentia excluída dessa alegria. Se chovesse, a natureza parecia estar de acordo com o mais profundo de minha alma, parecia permitir tal dor. O coração apertava, ficava solitário. A mente não mais crê em belas palavras. A beleza da vida é só ilusão. Como sair desse buraco? Não há saída. A morte me espreita e a qualquer instante pode acabar com essa dor. Será que vale a pena? Decidi que sim. Tentei resistir. Mas a dor estava grande demais. Amigos, se esqueçam logo e não sofram. Ti, meu amor, me perdoa por não ter sido mais forte. Te amo. Saiba que não havia grandes motivos para isso, mas pequenas coisas que tornavam difícil viver. Perdoa-me por tudo isso, por te fazer sofrer. Mas eu não podia agüentar mais. Eu não queria ter desistido. Como sou fraca! Mas não agüento mais esse sofrimento inútil que me persegue sem eu nem ao menos saber porquê. Não pensem muito em mim, vocês merecem ser felizes. Não desejo pra ninguém o que eu sofri. Sejam muito felizes, vocês meus amigos, e você Tiago.
Te Amo,
Noelle


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