__ Marina tinha nada que abrir a boca!
__ Relaxa, Bel.
__ Ah, Márcio! Não sei o que eu faria, o que eu seria sem você!
__ Isabel, você não parece certa do que quer. Tem certeza sobre o noivado?
__ Eu topei porque o amo, mas não sei se já é hora, se ainda é cedo, sinceramente eu não sei o que pensar. Também foi a empolgação do pedido, o jeito que ele pediu... Só de noite, antes de dormir, consegui pensar se era isso mesmo que eu queria. Como sou ansiosa, impulsiva e inconseqüente! Afinal, só tenho 17 anos, muita coisa ainda pode acontecer.
Ele sabia, a garota estava diferente do irmão. Só não imaginava que ela estivesse indecisa. Imaginou tantas formas. Se deu conta de que estava pensando muito nela. Era preciso evitar isso. Eles estavam no pátio de escola. Isabel abraçou o amigo como num impulso em busca de apoio, proteção. Ele a acalmou, deslizando os dedos por aqueles cabelos loiros, que na verdade eram tão castanhos quanto os dele. Parecia que não havia mais ninguém ali. Há muito tempo os dois se conheciam, trocavam histórias, segredos. Se ajudavam, estavam sempre ali, um para o outro. Era somente nos braços dele que Isabel se permitia ser fraca. Somente com ele que ela chorava. Somente para Márcio ela revelava suas dúvidas, suas aventuras, suas loucuras, sua alma. Que Márcio a conhecia bem mais do que Fernando, disso não havia dúvida. Mas ela nunca conseguiu fazer com que Márcio falasse sobre o que achava do namoro dos dois. Ele sempre se esquivava das perguntas, parecia não ter opinião formada, parecia distante e alheio àquilo tudo. E também evitava falar sobre garotas. Nunca falava de quem ele estava afim. Isabel afastou seu rosto do ombro de Márcio e ficou de frente para ele. Admirou os olhos azuis do rapaz. Observou que ele a olhava de um jeito diferente e teve medo de que ele fosse capaz de, com esse olhar, penetrar seu coração e descobrir sobre ela mais do que ela mesma sabia. Márcio fitava lindos olhos verdes, ligeiramente rasgados, mas isso apenas era um detalhe, um charme a mais. Percebeu que a Isabel o examinava da mesma forma, com a mesma profundidade. Temeu que ela descobrisse segredos que ele não queria assumir a existência (embora não conseguisse esquecer) e desviou o olhar. Por uma fração de segundo, souberam exatamente o que se passava no coração um do outro, mas se negaram a assumir. Os dois ficaram sem jeito, como se tivessem invadido demais um ao outro, mas a situação não demorou muito. Logo Márcio lembrou-se de seus pensamentos sobre ela estar diferente.
__ O Fernando tava tão empolgado. Sabia que você estaria diferente.
Com um sorriso tímido que a deixava ainda mais linda, ela admitiu.
__ Sempre estou diferente do Fê né?
Tocou o sinal para o fim da aula. Saíram juntos e uma rua antes da casa dela, Márcio se despediu. Para distrair sua mente, ficou reparando no caminho. As casas eram raras, o que mais se via eram sobrados sem quintal, apenas com uma garagem apertada.
Pensou na vida, na casa onde morava com os pais. Quanto tempo? Três anos. Parece que foi ontem. Eles foram jantar fora e não voltaram mais. Márcio morou primeiro com Fernando, na casa de um tio. Mas não se davam muito bem. Foram os dois morar com Criss, a irmã independente, mais velha, que já tinha conseguido alguma coisa na vida quando os pais se foram. E desde quando ele conhecia Isabel? Desde que podia se lembrar. Seus pais eram amigos, embora morassem longe. Ela nunca foi muito chegada ao Fernando. Mais velho, queria sempre ser o maioral. Com doze anos, perderam contato. Unidos apenas pelas cartas, Isabel e Márcio continuaram muito ligados. Quando Criss se mudou pro bairro, ela sugeriu que ele viesse junto. Não houve resposta sobre isso. Até que, há dois anos eles se reencontraram. Na época, Isabel estava ruiva, já tinha perdido metade do ar de criança e encantava todos os rapazes. Pois bem, Fernando foi um dos encantados. E com uma ajudinha de Márcio, conquistou Isabel. Na época em que começou a namorar Fernando, Isabel tinha 15 anos. Fernando, 18. Começaram a namorar no aniversário de Márcio. Essa parte das lembranças começou a se repetir sem trégua em sua mente e Márcio resolveu pensar em outra coisa, como na prova de química da próxima semana.
Isabel chegou do trabalho quase de noite, meio cansada. Subiu a escada apressada, como se estivesse fugindo, mas não sabia do que. Parou no espelho, ao lado da porta de seu quarto. Olhou bem sua imagem e resolveu que era hora de mudar, estava com um rosto muito calmo e comportado, o que não combinava com a atual situação de sua alma. Tirou o esmalte rosa, passou o preto enquanto se decidia. Foi na cabeleireira. Voltou com os cabelos negros, tingidos num tom preto azulado e um palmo mais curtos. Agora estavam na altura dos ombros, e num corte meio desfiado. Resolveu ir direto na casa de Fernando. Ele mesmo abriu a porta e deu um sorriso.
__ Nossa! Você está muito gata! Assim vai acabar me matando!
__ Que exagero Fê! Mas vim por outro motivo. O Má está?
__ Ihhh... Posso saber por quê?
__ Trabalho de Literatura.
__ Sei! Márcio, desce aí!
__ Oi Bel! Como você tá linda!
__ 'brigada...
__ Dá pra parar?! "Chama o Má" "oi Bel"... Que coisa vocês dois! E essa troca toda de apelidos! Eu hein?!
__ Relaxa Fê! A Criss saiu?
__ Saiu!
Subiram devagar, até o quarto do Márcio. Ele e Fernando dormiam no mesmo quarto, mas Márcio passava muito mais tempo ali, ouvindo rádio, mexendo no computador.
__ Bel, você veio mesmo por causa do trabalho?
__ Também. Ah Márcio! Preciso tanto de você.
__ Por que não do Fernando?
__ Porque você me entende, me conhece melhor que ele. Sabe quando eu não tô legal só de olhar e o Fê, sei lá... é diferente, ele é meu namorado...
__ Noivo.
__ Tudo bem, noivo. Mas ele não me entende tão bem como você.
Sentaram no chão, com muitos livros espalhados. O trabalho era sobre as tendências atuais, e decidiram usar uma poesia. Estava tocando Legião Urbana e os dois, cantando baixinho, quase não conversaram. De repente, Márcio parou de cantar.
__ Olha o versinho que eu achei: "Não morre o amor, como um arpejo morre, a tremer, sobre uma corda: ida a paixão, morto o desejo, o amor revive por um beijo, por um olhar que se recorda..."
Parou de ler e olhou Isabel. Nesse momento, o cd acabou e o silêncio entre ambos era quase físico. Isabel ficou sem reação pois a poesia evocou muitas lembranças. Reparou o jeito de Márcio a olhar. Abraçou o garoto e começou a chorar. A música recomeçou, mas nenhum dos dois acreditava. Aquele olhar, aquela poesia, tudo parecia ter demorado horas e foram apenas alguns segundos! Apenas tempo de o aparelho trocar de cd sozinho. Fernando entrou no quarto e encontrou a garota deitada em sua cama, chorando baixinho. Sentou um pouco ao seu lado, deu-lhe um beijo suave no rosto e desceu para ir buscar o chá que tinha acabado de fazer, sem entendê-la, como vinha acontecendo com freqüência.
Muitas coisas estavam mexendo com Isabel. Em casa, o clima pesava, ela andava irritada e quase não olhava para a mãe. Saia da escola direto para o trabalho. Chegava em casa mais ou menos oito horas. Se queria conversar, saía, telefonava. Quando precisava de algo ou mesmo quando queria um apoio dentro de casa, procurava o pai. Filha única, meio rebelde meio maluca, prometera nunca tratar sua filha assim. Mal podia se lembrar da última vez que ela e a mãe trocaram uma palavra amiga. Isabel tinha uma personalidade igual a de seu pai. Numa das últimas brigas, a mãe falou que só tinha servido de abrigo por 9 meses porque de resto, Isabel era toda do pai e já não ia mais se preocupar por ela. Isabel se dava bem com ele, mas fazia seis meses que ele havia saído de casa. Ela não sabia onde se apoiar e buscava cada vez mais Márcio. Ainda tinha esse lance de noivado. Só Márcio sabia o quanto ela era indecisa nas coisas do coração. Tudo estava mexendo demais com ela. Enquanto Márcio recitava a poesia, Isabel se lembrou de um caderno que ele lhe havia dado, com a recomendação de que não lesse tão cedo. Curiosa, ela abriu. Vendo que eram poesias, não quis ler, com 15 anos, ela ainda não se interessava tanto assim por poesias. Esqueceu o caderno guardado em algum canto do seu quarto e, depois de Márcio ler a poesia, sentiu que precisava dele. Sentiu que se lesse o caderno, ia entender o que estava acontecendo. Seria possível? Seu coração dizia que sim. Ela resolveu escutá-lo, afinal, ele parecia ter certeza de que estava certo.
Fernando voltou com o chá. Ela bebeu rápido.
__ Fernando, deixa a gente!
__ Calma Márcio! Que pressa!
Assim que ele saiu, Márcio perguntou.
__ Quer continuar vendo poesias?
__ Não! Vamos fazer a outra parte!
Ela saiu de lá dez horas, mas só chegou em casa às onze. Foi para a praça da cidade. Foi onde o Fernando a pediu em namoro, onde Márcio lhe entregou o caderno. Sentou no chão, encostou numa árvore e ficou pensando. A praça estava movimentada demais. Sabia de um lugar onde ninguém iria reparar nela, mas era preciso tomar cuidado pois um casal poderia estar lá. Foi até a árvore. Não havia ninguém ali. Entrou numa abertura no tronco e encostou na parte interna. As folhas desciam, formando uma cabana e a isolando do mundo. Depois de muito pensar, de tentar descobrir o que se passava em seu coração, resolveu voltar para casa. Sua mãe, assim que a viu entrar, tentou um interrogatório. Perguntas sobre a aparência e sobre onde Isabel andou até aquela hora deixaram a garota irritada. Começou nova discussão, nova briga.
__ Aonde a senhorita estava até essa hora?
__ Por aí.
__ Quem a moça pensa que é para me responder assim? E quem deixou você pintar esse cabelo de novo?
__Ihhh... Não enche que hoje eu não tô legal. Acho que já tô grandinha para saber aonde ir e o que fazer.
__ Isabel! Ainda sou sua mãe!
__ Pensei que você só tivesse me abrigado por 9 meses!
__ Acho que a senhorita ainda me deve respeito!
__ Pára de me chamar assim!!! Pra me chamar de moça e senhorita, a senhora não precisava ter me dado o nome de Isabel!
__ Não me responda assim!
__ Então me deixe em paz!
Isabel subiu as escadas correndo, para evitar que a briga se prolongasse. Bateu a porta com força. Caiu na cama e dormiu chorando.
Dez da manhã, Márcio estava ao lado de Isabel, ela tinha lhe dado a chave de casa e do quarto, sempre trancados. Uma cópia pra ele, outra pro Fernando. Era sábado. Ela ficava ainda mais bonita dormindo! Ajoelhou-se ao lado da cama e beijou-lhe a face. Isabel moveu-se e suas bocas se aproximaram. Márcio afastou-se e a garota acordou.
__ Bom dia! Que horas são?
__ Dez e uns minutinhos.
__ Seu louco, ainda tá muito cedo!!!
Márcio sentou-se na cadeira do outro lado do quarto, rindo. Isabel levantou e foi para o banheiro do quarto, que era uma suíte. Começou a se trocar. Tinha dormido como chegou. Por um acaso, a porta ficou um pouco aberta, Márcio fingiu não reparar. Ao perceber o descuido, Isabel ficou meio sem jeito e Márcio tentou brincar.
__ Gostei da calcinha.
__ Idiota...
__ Sério, é sexy!
__ Vai comer comigo?
__ O quê? A calcinha é comestível?
__ Vai à merda!
__ Calma Bel! Brincadeirinha!
Desceram as escadas juntos e foram tomar café da manhã.
__ Vai na boate hoje?
__ Lógico!
Pouco depois do Márcio ir embora, Fernando chegou. Conversaram muito, mas Isabel não estava bem, não achou o caderno. Com tudo o que aconteceu, não tivera tempo de procurar. Ele passou a tarde toda ali, e assim que foi embora, Isabel subiu correndo. Entrou no quarto e trancou a porta, como era seu costume fazer. Só então reparou na aliança, esquecida em cima da cômoda. Não estava acostumada com ela, e não sabia se queria se acostumar. Sem que percebesse, ficou um longo tempo parada, olhando-a, com o pensamento vagando em algum lugar.
Saiu de seu torpor e começou a procurar o caderno. Onde estaria? Onde ela o teria guardado para que ficasse mais de dois anos sem que o visse? Revirou o velho baú e se perdeu entre as recordações que ele lhe trouxe. Parecia ter sido há tanto tempo. Diários antigos, cartas de antigos amigos, que não via há muito. Pedaços de sua história e da transformação que ocorrera nela aos poucos. Foi se redescobrindo em meio a tantas coisas, e nem tudo que descobriu a agradou. Então olhou o relógio e descobriu que já estava tarde, tinha que se arrumar, prometera sair com Fernando naquela noite.
Isabel deixou o quarto como estava, todo revirado. Tomou apenas o cuidado de trancar a porta. Sabia que sua mãe não entraria ali, mas mesmo assim, resolveu não arriscar. Ela havia tomado um banho demorado, como se procurando arrancar do corpo e da alma todas aquelas lembranças e situações que novamente tinham vindo à tona. Não tinha seu brilho alegre de sempre, mas estava encantadoramente melancólica. Os lábios pintados de um tom escuro, os olhos contornados com um lápis forte e mais nenhum traço de maquiagem. Os cabelos lisos, soltos por sobre os ombros e a roupa toda preta. Saia, meia-calça, bota, top e jaqueta. Quando descia as escadas, ouviu a campainha. Na certa estava atrasada e os meninos tinham vindo buscá-la.
Choveram elogios em cima da garota, e poucos reparavam no seu ar distante e melancólico. Tudo aquilo lhe era indiferente e agora, se perguntava porque tinha ido. Tudo o que queria era ficar sossegada em casa, podendo procurar seu caderno. Com tantas coisas em sua mente, ela mal reparava no que se passava ao redor. Meninas apareceram dando em cima de Fernando e de Márcio, que buscavam nela um apoio, mas não encontravam. Homens vinham atrás dela, mas quem se doía eram eles, ela nem reparava. Alheia a tudo, estava sentada num dos bancos do bar que tinha lá dentro. Tomava alguma coisa forte que ia soltando aos poucos sua língua e distraindo sua mente. Fernando saiu, foi ao banheiro. Márcio sentou no banco vazio ao lado dela e, de repente, como se ele estivesse pensando o mesmo que ela, Isabel apenas falou:
__ Você lembra daquele caderno que me deu? Faz muito tempo já... um caderno universitário, nem lembro mais a capa...
__ A capa era um ator que você gostava, esqueci o nome dele. Lembro sim.
__ Eu nunca li. Sempre tive um certo receio do que ia ler. Mas o guardei. E vou ler amanhã.
Eles se olharam nos olhos, novamente daquele jeito de quem não tem nada a esconder, mas ainda sim tem medo do que pode ser visto. Márcio a olhava sem dizer nada, e ela desviou o olhar, procurando novamente o copo. Se Fernando não chega naquele momento, nenhum dos dois é capaz de dizer o que poderia ter acontecido. Ela pegou seu copo numa mão, puxou Fernando com a outra, e foram para a pista, dançar um pouco. Ela não queria ficar perto de Márcio, sua língua estava solta demais para que ficassem os três juntos.
Saíram de lá devia ser quatro horas. Isabel, que bebera mais, ainda tinha o efeito do álcool em seu corpo, mas estava muito cansada para se preocupar com isso. Queria apenas chegar em casa. Fernando fez que ia entrar, ela disse que não, queria ficar sozinha, dormir até mais tarde. Ele foi embora com Márcio, achando que tinha alguma coisa de diferente, afinal, sempre que saíam juntos, ele subia e ficava pelo menos até amanhecer. Ela devia estar cansada. Também, ele nunca a vira bebendo tanto, nem dançando tanto. Tratou de afastar tais pensamentos, chegou em casa e dormiu.
Isabel tomou um longo e demorado banho. Por que havia falado do caderno para Márcio? O que ela queria com isso? Enfim, agora não adiantava pensar. Saiu do banho e colocou uma camiseta que usava para dormir. Sentou no chão, onde todos os seus papéis ainda estavam espalhados e começou a mexer naquilo tudo. A cabeça melhorava aos poucos, os pensamentos tomavam uma nitidez assustadora, e tinham a ver com Márcio.
As horas foram passando, o domingo amanheceu chuvoso. E muita coisa se passava dentro dela. Então, achou um caderno que por muito tempo, acompanhou seus diários, com anotações sobre coisas que ela mesma mal pensava. Na capa, um símbolo que significava Felicidade. Abriu, folheou lentamente, se demorando um pouco em algumas páginas. Até que achou uma referência ao caderno que Márcio lhe dera. E então, escrito onde o havia guardado: Numa caixa de madeira, que ficava embaixo de sua cama, junto com muitas coisas que ela não mexia.
Largou todos os papéis e apagou a luz, já não precisava dela mesmo com a manhã estando escura. A caixa estava meio escondida. Viu seu cadeado e na mesma hora se levantou. A chave estava junto com seus brincos e anéis. Por tanto tempo vendo aquela chave todo dia, por que nunca se preocupara com ela? Pegou a chave, abriu a caixa. Dentro, muitas cartas, algumas ainda lacradas. Cartas que ela enviaria para Márcio, pouco antes dele se mudar. Cadernos velhos, alguns sem capa. Pequenos presentes e lembranças que ela não tinha porque deixar a vista, e por isso foram parar lá, já que ela não gostava de jogar presentes fora. E, por baixo de tudo aquilo, o caderno com o ator na capa. Ela o pegou como se fosse uma relíquia. Sentou na cama e ficou indecisa, sem saber se deveria abri-lo. Fechou os olhos por um longo momento e só então se deu conta do quanto estava cansada. Mesmo com toda sua curiosidade, mesmo com toda a vontade que tinha de saber porque aquele caderno tinha tomado um papel tão importante nos últimos dias, entendeu que precisava dormir, que não entenderia nada do que lesse se não dormisse um pouco. Colocou o caderno dentro da gaveta de sua mesa. Juntou todos os papéis de forma desordenada, apenas para não pisar em nada, e colocou-os de volta no baú. Dormiu quase imediatamente, num sono sem sonhos.
Acordou com a cortina meio aberta. Logo sentiu mais alguém no quarto e ao virar-se, deu de cara com Fernando, sentado numa cadeira, a observando de longe. Seu primeiro pensamento foi comparar ele e Márcio, a diferença entre os dois até mesmo nisso, no jeito de ficar por perto.
__ Que horas são?
__ Quase três...
__ Caramba... dormi muito.
Levantou-se sem mesmo se preocupar em dar um beijo no noivo. Foi ao banheiro se trocar, mas dessa vez não se deu ao trabalho de fechar a porta. Fernando levantou devagar, mas antes que chegasse perto, ela já estava completamente vestida. Ele sorriu, tinha um lindo sorriso.
__ Tava vendo você dormir... me deu uma vontade de ficar te beijando até você acordar...
E a tomou nos braços, dando um longo beijo. Logo Isabel se soltou do abraço.
__ Fê, tô morrendo de dor de cabeça...
__ Também, ele respondeu contrariado, nunca te vi bebendo que nem ontem. Tá acontecendo alguma coisa? Você sabe que pode contar comigo pro que der e vier, não sabe?
__ Sei sim. Nem tá acontecendo nada, só ando cansada mesmo. Liga não amor...
Desceram. Ao se deparar com a mãe em casa, Isabel pegou o noivo pela mão, colocou os óculos escuros e saiu sem nem dizer oi. Comeram alguma coisa numa lanchonete ali perto. Ficaram conversando distraídos e quando anoitecia, ela resolveu ir para casa. A dor de cabeça não passava, ela precisava tomar um remédio e descansar um pouco. Dormir, talvez. Afinal, tinha aula no dia seguinte.
Comprou um comprimido qualquer numa farmácia 24 horas e foi direto para casa, para o seu quarto. E, enfim, pegou o caderno para ler. Sentou na cama, como no dia anterior. Pernas cruzadas, a cabeça tombando ligeiramente para o lado e o comprimido esquecido em cima da mesa, sem que ela tivesse tomado. Na capa, um ator que tinha feito sucesso numa novela, já tinha um bom tempo. E que ela gostava muito. Logo na primeira página, um poema que ele recitara nessa novela. E ao ler, ela começou a entender.
"Só Tu
De todas que me beijaram
De todas que me abraçaram
Já não me lembro, nem sei!
São tantas que me amaram
São tantas as que eu amei.
Mas tu - que rude contraste
Tu que jamais me beijaste
Tu - que jamais abracei
Só tu nesta alma ficaste
De todas as que eu amei."
Isabel tentava desmentir o que lia, era apenas porque ele sabia o quanto ela gostou dessa novela, a última que assistiu. O quanto ela gostava quando aparecia a voz do ator, recitando esse poema. Virou a página. Se deparou com uma lista, intitulada "coisas que me lembram você". A lista começava com banho de chuva. Sim, ela lembrava do banho de chuva que tomaram juntos, sempre lembrava quando começava a chover. Seguiam um monte de coisas, lotando a folha. A grande maioria, coisas que haviam acontecido com os dois juntos. Algumas, simplesmente coisas das quais ela gostava e ele sabia. O caderno estava todo escrito nesse estilo. Como apenas um apaixonado sabe escrever. Mas não, ela não continuou lendo. Ergue os olhos do caderno, pensativa. "Por que?" . Levantou devagar. Foi ao espelho, viu olhos um tanto quanto molhados, como de quem quer chorar, mas viu um princípio de sorriso em seus lábios. Lavou o rosto e saiu.
Enquanto andava, pensava no absurdo da situação. Ao chegar na praça, perto da casa dele, viu Fernando e Marina conversando. Estavam sentados num banco, como bons amigos. Ela estranhou, nunca os tinha apresentado. Mas não parou, seguiu para a casa dele, pensando que talvez fosse mesmo melhor assim, ela queria conversar com Márcio e Fernando não ia entender isso.
Entrou sem bater, a porta estava destrancada. Subiu direto para o quarto, onde sabia que Márcio estaria.
__ Não sabia que o Fernando e a Marina se conheciam.
__ Até onde eu saiba, não se conhecem.
__ Nossa, estranho, já que eles estão na praça conversando.
Só então Márcio se virou para ela, dando as costas ao computador. Algo começava a se juntar em sua mente. Mas não deu tempo para que ele pensasse muito, logo Isabel começou a falar.
__ Eu li uma parte do caderno, uma pequena parte. Mas não sei se entendi direito.
Márcio ficou um momento parado, pensando no que fazer. Nunca imaginara tudo isso nessa situação. Sim, ele ainda a amava, e muito. Mas, não sabia direito o porquê, a garota preferira seu irmão. Pensou que depois disso, nunca uma conversa envolvendo aquele caderno pudesse acontecer. Achava que ela já tinha lido e ficou surpreso na boate, ao saber que não. Agora, simplesmente não sabia o que fazer. Ficaram calados por um momento, até que Márcio levantou e pediu que ela sentasse. Sentou ao seu lado e começou a brincar com a mão dela.
__ Cadê a aliança?
__ Ai, esqueci de novo. Ainda não me acostumei muito com ela.
E quando ela terminava de falar, Márcio chegou perto, de leve, e lhe roubou um beijo. E antes que ela pudesse falar qualquer coisa, ele começou.
__ Você sempre foi a mulher da minha vida. Sempre esteve em meus sonhos e sempre representou muito pra mim. Nunca quis tanto alguém como quero você. Nunca amei ninguém além de você. E sempre foi contigo que me imaginei, num futuro longe, bem longe daqui. Pronto, agora você sabe a única cosia sobre mim que, podia até desconfiar, mas sempre desculpava e fingia não perceber. Eu te amo.
Isabel não sabia ao certo o que fazer. Ele conseguira mexer com ela mais do que tinha imaginado. Aquele beijo, aquela mão brincando com a sua. Aquela confusão em seu espírito. Ela estava confusa e perdida. Não sabia o que fazer, o que dizer, nem como sair dessa situação. E pela primeira vez, se perguntou porque tinha começado a namorar Fernando, se perguntou se realmente o amava e pensou de uma forma diferente sobre o amigo que estava na sua frente. Sem poder agüentar mais um segundo, levantou e desceu as escadas correndo. Saiu batendo a porta sem querer. E Fernando, que já estava em casa, percebeu, mas não a tempo de ver que era ela.
Márcio pensava no que tinha feito. Temia o que podia acontecer dali pra frente, que a garota nunca mais quisesse vê-lo. Mas não, ele tinha sentido, tinha visto em seus olhos... ela também o amava. Mas o que estava acontecendo afinal?
Isabel deitou assim que chegou, sua cabeça parecia querer explodir. Tomou o comprimido que ficara jogado. Tomou logo dois deles e foi dormir. A segunda-feira amanheceu linda. O Sol suave e um céu praticamente sem nuvem alguma, apenas aquelas que a gente gosta de brincar de adivinhar formas. E logo que viu o céu, lembrou de Márcio. Esse era um dos itens da lista. Bem, pelo menos o dia tinha que estar alegre e sem confusões. Era seu aniversário de 18 anos.
Márcio passou parte da noite em claro. Juntando as peças de um quebra cabeça que só agora ele começava a entender. Marina... Fernando... Isabel. Alguma coisa estava errada aí. E isso podia acabar mudando a história de uma forma que ninguém precisaria se sentir mal. Ele tinha certeza que o noivado não ia mais pra frente. Mas não queria de forma alguma que Isabel se sentisse culpada. E era no colégio que ele ia resolver isso.
Foi mais cedo, e encontrou Isabel lá, com o caderno aberto quase no meio, lendo, toda distraída. Passou sem ser visto e foi até onde Marina estava.
__ O que a Isabel tem hoje?
__ Sei lá, disse que queria ler e me pediu pra ficar sozinha...
__ Hum... Marina, posso te fazer uma pergunta?
__ Claro.
__ Você tá namorando?
__ Ah Márcio... que isso.... Talvez. A gente tá saindo tem mais de um mês já. Mas sei lá, parece que ele quer terminar comigo.
__ Como é o nome dele?
__ Fernando. Por que a pergunta?
__ Nada não, eu vi vocês dois ontem, queria saber.
__ Na praça né? Primeira vez que a gente saiu assim, juntos, mas ele nem me beijou direito. Queria conversar sobre a gente, mas eu não deixei.
Márcio saiu dali com a certeza que precisava. Seu irmão estava traindo a Isabel. Por que Criss não dissera nada? Ele devia ter deixado escapar pra ela e a feito prometer que não falaria. Sabia o quanto a irmã gostava dos dois, e que iria esperar que Fernando resolvesse tudo. Mas não era isso que Márcio queria e pela primeira vez, ele decidiu lutar pela mulher que amava, afinal, sentiu nela dúvida quanto a Fernando e viu que ele a traía.
Na aula, eles mal conversaram. Isabel sempre lendo, alheia a tudo. Márcio, pensando no que ia fazer. Na saída da aula, esperou que as duas estivessem juntas e convidou.
__ Bel, vamos almoçar em casa vai... pelo teu aniversário, nada de lanchonete hoje. A Marina pode até vir junto, eu sei que direto vocês almoçam juntas, vamos vai.
__ Normalmente as pessoas costumam comer fora no aniversário e almoçar em casa. Olha aí, eu de novo, provando que não sou normal.
Eles riram e seguiram animados pra casa de Márcio. Ele fingiu ter esquecido a chave, e pediu pro irmão abrir a porta. Marina não pensou duas vezes ao vê-lo.
__ Ah, então foi por isso...
E rindo, deu um beijo na boca de Fernando, antes que ele pudesse fazer qualquer coisa. Isabel fingiu que não tinha acontecido nada, e soltou para Marina.
__ Ah, é com ele que você tá saindo? Cuidado hein amiga, daqui a pouco até em casamento ele te pede, que nem fez comigo.
__ Ai eu não acredito nisso...
E deixaram Fernando sem saber o que fazer, saindo e batendo a porta, indo para a casa de Isabel.
__ Márcio, há quanto tempo você sabia?
__ Desconfiei ontem, quando você me disse que eles estavam na praça. Eles não se conheciam, nunca tinham se visto, pelo menos até onde eu soubesse. Hoje cedo perguntei pra Marina e ela me confirmou. Achei que você devia saber.
Marina já não estava com eles, nem tinha parado na casa da amiga. Isabel decidira não ir trabalhar, ligou pro escritório e disse que não estava bem. Como a mãe não estava em casa, eles estavam na cozinha, comendo alguma coisa.
Isabel subiu para o quarto. Estava sim com raiva por ter sido enganada, com uma de suas melhores amigas. Mas ao mesmo tempo, não estava tão chateada quanto achou que devia. Confusa, começou a mexer na bolsa que estava sobre a cama. Márcio entrou no quarto, sem dizer nada. Ficou observando a garota por um longo tempo, e quando viu que ela não ia virar, não ia falar ou fazer absolutamente nada, resolveu dizer o que sentia. Sentou na cama, perto dela. E falou baixinho, como se tais palavras fossem necessárias.
__ Por muito tempo eu escolhi não lutar por você e tentar apenas te esquecer. Ninguém além do caderno que eu te dei, sabia o que se passava no meu coração. Você sempre foi a pessoa mais querida. Quando, depois de muito tempo, tornei a te ver, foi como se o mundo tivesse parado. Nada eu via ou ouvia. Só tinha você na minha frente e meu impulso foi te dar um beijo. Mas você se adiantou e me deu um abraço apertado, me chamando de amigo, de um jeito que me fez morrer por dentro, ainda que só um pouco. Vi o quanto meu irmão estava apaixonado por você, ajudei sim ele nesse sentido, mas porque realmente acreditava que ele era capaz de te fazer feliz. Só que você ficava cada vez mais forte dentro de mim. Tantos e tantos dias, te vendo sempre por perto, sentindo você, teu cheiro, teus cabelos. Quantas vezes não te vi chorar por causa dele? Não, eu acreditava em vocês e não queria de forma alguma que você sofresse e se machucasse, nunca acreditei que você me veria de outro modo, além daquele amigo. Foi então que aconteceu o noivado e eu ouvi uma conversa entranha do Fernando. Aquilo ficou na minha cabeça. Depois, teu jeito. Eu não te imaginava assim, não imaginava que você nunca tivesse lido o caderno. E fui juntando tudo. Não sei se fiz certo ou errado, não sei se deveria ter feito antes ou nunca e ainda que eu só perca com tudo isso, preciso que você saiba que te amo. Te amo demais.
Isabel olhava Márcio do mesmo modo que já havia olhado tantas vezes, sentindo que eles dois eram diferentes do resto do mundo. Mas só agora entendendo o porquê. Abaixou e deu um beijo suave, beijo de quem sabe que não existe tempo, apenas uma vida inteira pela frente.
__ Eu devia ter lido esse caderno antes, bem antes.

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